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20 de outubro de 2016

Estrelinha Mayor

Desde que me lembro que sou diferente do comum dos mortais. Em vez de dois avós, tenho três! E considero-me sortuda por isso! Dois (os pais dos pais) de sangue e um deles (um casal como nunca vi) de coração! Desde que os meus pais se separaram, e na minha santa terra, fui recebida por eles como a primeira neta. Eu e a minha irmã, desde cedo nos habituamos a ir até ao estaminé dos nossos avós, trincar um Kinder Bueno ou pedir ao Sr. Adelino (o nosso avô de coração) para nos trazer um pãozinho de chouriço quentinho do forno da Padaria enquanto a nossa Avó de Coração nos preparava um leitinho com chocolate. 
E, desde os nossos tempos tenros de infância e adolescência, foi sempre assim. Passamos a ter avô e avó onde os nossos de sangue não estavam por razões que a lei da física ainda não permite que sejam ultrapassadas - a distância que separa o nosso pedaçinho de paraíso de Portugal Continental. 
E era assim. De quinze em quinze já sabíamos que a sexta-feira era hora de chegar e ir fazer xixi e cama, e sábado era alvorada às seis ou sete da manhã conforme a nossa preguiça aguda mas que o destino era a Padaria.
Foi nos Natais que mais soube de histórias da nossa família de coração. Desde trafulhices a coisas próprias de quem era de outras alturas. Nas passagens de ano, os nossos olhos brilhavam sempre que éramos recebidas com o sorriso insubstítuivel deste grande Senhor. Foi aliás ele mesmo que nos ensinou, a mim e à minha irmã, como lançar uma roqueira. A nossa primeira roqueira (e última porque o barulho é mais forte que o meu coraçãozinho) foi lançada com a mão dele por cima da nossa para largarmos mal ele dissesse e a outra no isqueiro para acender o rastilho.
Foi também com ele que discuti algumas vezes o que se passava a nível da política regional, foi com ele que aprendi também como manter a calma e parecer ignorante e estar a dar gozo a algum energúmeno - palavra esta que também aprendi nas conversas sábias de quem tinha o maior sentido de humor que conheci até hoje. 
É talvez a maior marca que deixa em mim - o sentido do humor e a personalidade mais carismática que acompanhei e que, sem saber ou não, me foi dando a aprender. 
Foi também ele que ralhava ao meu pai para nos deixar ir até ao redondo abaixo da casa andar de bicicleta - "Deixa as miúdas irem, se caírem, elas logo se levantam" dizia ele cada vez que nos fazíamos tempo de espera para planear o que dizer ao pai para sair. 


Obrigada não chega para tudo o que directa e indirectamente me ensinou. Não estive mas foi sempre o meu pensamento...

Até sempre

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